12 de maio de 2026

Thiago Ávila chega ao Brasil, denuncia tortura e pede ruptura com Israel

Após dez dias preso ilegalmente em Israel, o ativista brasileiro Thiago Ávila desembarcou no Aeroporto Internacional de Guarulhos por volta das 17h30 desta segunda-feira (11) e foi recebido por organizações de solidariedade à Palestina. Antes de embarcar para Brasília, sua cidade natal, ele concedeu entrevista à imprensa e fez denúncias graves onde relatou ter sido torturado, desmaiado duas vezes sob agressão e ameaçado de morte por interrogadores israelenses.

Por Barbara Luz/ Portal Vermelho

O defensor da causa palestina havia sido sequestrado pelas forças armadas israelenses em 30 de abril, durante uma nova missão da Global Sumud Flotilha que tentava levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza. Ao chegar ao aeroporto, antes da coletiva, Ávila foi retido pela Polícia Federal para um interrogatório, encerrado por volta das 18h30.

“Eles diziam diretamente que queriam me matar, me deixar cem anos preso. Mas eles só não conseguem pagar o custo político disso, e com os palestinos, por conta da campanha de desumanização e da cumplicidade dos governos do mundo, eles acreditam que podem pagar o custo político de torturar e assassinar palestinos, e isso que a gente precisa impedir”, contou.

Tortura e testemunho no cárcere israelense

Na coletiva, Thiago foi direto: “Toda vez que eu volto de uma flotilha, tem a pergunta sobre como eles me trataram, e dessa vez eu tenho muito mais o que dizer, infelizmente. Mas o importante é que, do meu lado, tinha gente sendo tratada muito pior do que eu.”

Segundo o ativista, ele foi mantido em um centro de tortura e interrogatório da inteligência interna israelense, onde palestinos eram submetidos a agressões diariamente. Os interrogadores, disse ele, afirmavam abertamente que tinham autorização judicial para torturar — e que as sessões de tortura dos detensos ao redor dele eram tratadas como “música” por quem as aplicava.

“No centro de tortura e interrogatório da inteligência interna israelense, tinham pessoas palestinas sendo torturadas ao meu lado todos os dias, sem exceção. Os interrogadores diziam que aquilo era música. Eles tratavam aquelas pessoas sem nenhum respeito, sem nenhuma dignidade. E comigo era uma fração daquilo, que também é um absurdo.” — Thiago Ávila, em coletiva no Aeroporto de Guarulhos.

Ávila confirmou que desmaiou duas vezes em consequência das agressões sofridas — episódios que, segundo ele, foram mais intensos e violentos do que nas duas ocasiões anteriores em que já havia sido detido por forças israelenses.

Questionado se seu retorno representa uma vitória contra o sionismo, o ativista foi enfático: “A minha volta foi só uma correção de uma grave violação. Eu fui sequestrado por Israel, eu não fui preso. Eu fui torturado por Israel, e não interrogado com ‘métodos avançados’, como eles diziam que eram autorizados a fazer. Temos que desnaturalizar essas coisas. Tem nove mil palestinos lá agora.”

Gratidão palestina ao Brasil e a Lula

Ávila também agradeceu o apoio público do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a detenção e transmitiu a gratidão do povo palestino ao Brasil. Segundo ele, dentro do presídio israelense, detentos que conseguiam se comunicar com ele pelas paredes e portas sempre mencionavam o Brasil com carinho — assim como alguns dos guardas mais precarizados, que não estavam, nas suas palavras, “inundados de ódio no coração”.

“O que eu tenho como referência é o que o próprio povo palestino diz sobre o Brasil e sobre o presidente Lula. O povo palestino é muito grato pelo presidente Lula ter sido a maior liderança mundial a dizer o mais rápido, no processo da escalada do genocídio, que era uma guerra perpetrada contra mulheres e crianças”, afirmou Thiago.

Ruptura total com Israel

Ao encerrar sua fala, Ávila foi além do caso pessoal e fez uma convocação política direta ao governo brasileiro. Para ele, não basta a solidariedade retórica, é preciso romper todos os laços institucionais com o Estado israelense.

“O Brasil ainda tem relações com o estado genocida de Israel; relações militares, acordos comerciais, acadêmicos, culturais, artísticos. Todos esses devem ser rompidos, porque o povo brasileiro não quer ter relação nenhuma com o estado que assassina crianças de fome”, frisou Ávila.

O ativista encerrou lembrando que a luta não é individual: “Como tudo que a gente faz na nossa ação de solidariedade com a Flotilha e com o movimento brasileiro de solidariedade com a Palestina, é um processo longo e árduo, que não é definido por pessoas específicas. É uma coisa muito mais importante que qualquer indivíduo, e demanda mobilização constante.”

Contexto: flotilha e bloqueio de Gaza

A Flotilha Global Sumud havia partido da França, da Espanha e da Itália carregando alimentos e itens de sobrevivência para a população de Gaza, sob bloqueio israelense desde 2007. As forças de Israel interceptaram a embarcação em águas internacionais no dia 30 de abril. Enquanto Thiago e o ativista espanhol-palestino Saif Abukeshek foram levados a Israel, os mais de 100 outros participantes foram conduzidos à ilha grega de Creta e liberados. Saif foi deportado para a Espanha e, ao desembarcar em Barcelona, declarou que sua maior preocupação são os palestinos ainda mantidos em centros de detenção israelenses. Atualmente, 57 embarcações da flotilha permanecem na Turquia, onde os participantes discutem os próximos passos da missão.