
Candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro participou de entrevista coletiva do Barão nas Eleições, que reuniu veículos progressistas para discutir os desafios para o estado e o Brasil
Benedita da Silva decidiu voltar à disputa eleitoral em um momento que considera particularmente importante para o país e para o Rio de Janeiro. Candidata do PT ao Senado, a histórica liderança do movimento negro afirma que sua candidatura nasce da disposição de contribuir diante dos desafios colocados para a política brasileira.
“Eu aceitei esse desafio porque nós estamos vivendo um momento difícil da política brasileira e do meu estado do Rio de Janeiro. Eu tenho experiência, tenho algum acúmulo e sei que posso ajudar. Não ficaria parada de jeito nenhum assistindo todas essas coisas acontecendo com o povo brasileiro e com o povo do meu querido Rio de Janeiro.”
As declarações foram dadas nesta quarta-feira (12), em entrevista ao canal do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, dentro da série “Barão nas Eleições”. A bancada reuniu Agência de Notícias das Favelas, Alma Preta, Diário do Centro do Mundo (DCM), Jornal GGN, Brasil 247 e TVT, com apresentação de Vanessa Martina-Silva, coordenadora do Barão de Itararé.
A série já realizou 12 entrevistas coletivas de mídias progressistas com candidaturas do campo democrático e popular, buscando discutir projetos e os principais desafios colocados para o Brasil e suas diferentes regiões na eleição de outubro.
Na conversa, a primeira senadora negra do Brasil e primeira vereadora negra da cidade do Rio de Janeiro abordou temas como a disputa eleitoral no estado, alianças políticas, democratização da comunicação, representação negra, juventude, evangélicos, favelas e direitos quilombolas.
Eleição, alianças e apoio a Lula
Ao explicar sua decisão de disputar novamente uma vaga no Senado, Benedita destacou que pretende atuar em sintonia com o projeto político do presidente Lula e contribuir para a articulação de recursos e políticas para o Rio de Janeiro.
“Eu coloquei este nome para o Senado para ajudar o presidente Lula no Senado Federal, que compõe o Congresso junto com a Câmara, e para ajudar no estado do Rio de Janeiro também. Caso seja eleito Eduardo Paes, poderemos somar nossas experiências para apoiar e buscar cada vez mais equipamentos e recursos para o Rio de Janeiro.”
Para Benedita, a construção de alianças é parte da própria natureza da política institucional. Ela defendeu a composição entre forças diversas para garantir a governabilidade.
“Nós fazemos alianças com os diferentes. Alianças são necessárias porque ninguém governa sozinho. São elas que dão uma base de sustentação para o governo. Na política, se faz aliança com os diferentes, não com os iguais. A política é a arte de obter consensos possíveis.”
Comunicação como direito cidadão
De acordo com Benedita, o país precisa investir em meios capazes de estabelecer uma relação direta com os territórios e ampliar o acesso à informação.
“A comunicação é fundamental e, por isso, precisa de investimentos. Não é apenas dizer que é uma comunicação alternativa. Nós temos que ter uma comunicação que dialogue diretamente com os territórios, que traga notícias e leve notícias de forma dinâmica.”
Benedita também chamou atenção para as dificuldades de acesso à internet e familiaridade com as novas tecnologias, especialmente entre pessoas mais velhas, e defendeu formas de comunicação capazes de manter uma relação próxima com as comunidades.
Ao projetar sua atuação no Senado, ela associa a democratização da comunicação à própria ideia de cidadania.
“Enquanto senadora da República, tenho certeza que vou lutar por uma comunicação que seja mais ampla, ética, transparente. Isso não é apenas uma questão da mídia, é uma ferramenta de cidadania que todos devem ter acesso. É preciso fazer com que a informação de qualidade não seja esse privilégio de poucos, mas o direito de todos, efetivamente acessível a todos os brasileiros e brasileiras.”
Representação negra na política
A discussão eleitoral também passou pela sub-representação da população negra nos espaços de poder. Benedita defendeu o cumprimento das cotas raciais e de gênero e cobrou dos partidos condições efetivas para candidaturas competitivas.
“É importante que vocês saibam que nem todos os partidos cumpriram com esta cota e que este ano há uma visão de que não terão como ser anistiados se não fizerem essa somatória que é colocar as demandas do movimento negro, partindo do seguinte: se nós somos a maioria da população, temos ainda menos representação política.”
Para ela, os partidos precisam apoiar concretamente essas candidaturas.
“É necessário que os partidos estimulem, incentivem, porque é uma dificuldade enorme para nós bancarmos uma campanha. Dentro desse contexto é que se trabalhou a questão das cotas.”
Benedita também rejeitou candidaturas usadas apenas para cumprir formalmente as regras eleitorais.
“Nós temos que cobrar os nossos partidos e não aceitar que as cotas não sejam aplicadas. Nós temos no nosso partido segmentos que estão lá colocados e que todos devem ser apoiados para disputarem o processo eleitoral.”
Juventude e disputa política
A percepção de que a juventude estaria simplesmente afastada da política não dá conta das transformações ocorridas nos últimos anos, avalia a candidata.
“O jovem não se afastou necessariamente dos problemas políticos. Muitas vezes, eles se afastaram da política institucional e da linguagem tradicional dos partidos.”
Segundo ela, novas formas de participação podem contribuir para a renovação das organizações políticas.
“Eles agora estão encontrando uma nova linguagem. Uma linguagem política está sendo compreendida e está também influenciando a renovação dos partidos políticos.”
Ao mesmo tempo, Benedita identifica uma disputa pela juventude, inclusive protagonizada pela extrema direita.
“Por outro lado, você tem também, na extrema direita, juventudes que estão sendo preparadas para uma ocupação de poder.”
Como contraponto, ela destaca políticas públicas que impactam diretamente a vida dos jovens, como cotas, educação e programas de permanência estudantil.
Evangélicos e a questão dos valores
Evangélica, Benedita também falou sobre a disputa política dentro das igrejas e rejeitou a ideia de que os evangélicos constituam um bloco político homogêneo identificado com a direita.
“Nós, evangélicos, sempre tivemos apoiando tanto direita quanto esquerda. Não é real o fato de achar que todos estão à direita.”
Para ela, é fundamental preservar a distinção entre religião, Estado e partidos políticos.
“Nós trabalhamos com muito afinco para que os nossos irmãos e irmãs entendam que partido político é uma coisa, Estado é outra coisa e as nossas igrejas são outras coisas.”
Benedita avalia que setores das igrejas foram submetidos a uma intensa disputa ideológica nos últimos anos.
“Hoje nós estamos enfrentando um outro momento: uma disputa espiritual transformada numa disputa ideológica partidária.”
Nesse cenário, ela considera fundamental reafirmar o caráter laico do Estado brasileiro.
“Tem gente que tem discernimento, que sabe separar, que sabe entender que o Estado é laico e sabe entender qual é o papel do Estado e qual é o papel do cidadão, sendo cristão ou não.”
Favelas: urbanização e direito à cidade
A defesa das favelas aparece como eixo importante do projeto defendido por Benedita. Para ela, a urbanização continua sendo uma das principais demandas desses territórios.
“Nós temos ainda uma grande dívida, porque o sonho das favelas sempre foi a urbanização. Nós tivemos, na verdade, meia urbanização.”
A candidata defendeu políticas públicas que garantam saneamento, mobilidade, saúde, segurança e acesso aos equipamentos públicos. Para ela, também é necessário reconhecer a capacidade de produção econômica e social desses territórios.
“A favela ainda precisa ser olhada pelos governantes de uma outra forma, porque a favela produz muitas riquezas que não são para ela.”
“Quero ver uma comunidade urbanizada. Uma comunidade urbanizada tem segurança, tem vias de acesso para passar uma ambulância, tem todos os instrumentos, todos os equipamentos de políticas públicas, de saúde, mais próximos dela.”
Quilombos, território e combate ao racismo
A defesa dos territórios quilombolas, conforme explicou a candidata, é fundamental para a construção de políticas efetivamente antirracistas. Benedita relacionou a titulação das terras à preservação da identidade e da história da população negra.
“É preciso que a nossa sociedade tenha ideia do que é preservar um quilombo. É preservar uma identidade, a nossa história, a coisa brasileira.”
Ela também destacou as dificuldades enfrentadas pelas comunidades diante da pressão de interesses econômicos sobre seus territórios.
“Continuo sabendo que alguns quilombos encontram dificuldade de titulação, porque existem essas especulações imobiliárias e esses especuladores são gente forte para nós brigarmos.”
Para Benedita, garantir direitos aos quilombolas também significa criar condições para que as comunidades possam produzir e se desenvolver.
“A verdadeira liberdade, ser quilombola, hoje é ter todos os direitos garantidos e todos os investimentos necessários para a sua produção.”
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