
Enquanto no Vale do Silício as big techs lançam modelos de inteligência artificial (IA) cada vez mais potentes — mas frequentemente enviesados —, no Brasil, desenvolvedores, jornalistas e ativistas apostam numa IA politizada. Em vez de consumir algoritmos que replicam preconceitos raciais e de gênero, estas iniciativas estão treinando suas próprias máquinas com datasets inclusivos, alinhados à defesa dos direitos humanos e à justiça social.
Por Natali Carvalho / AzMina
O movimento surge em resposta a um cenário alarmante de violência contra as mulheres no ambiente digital. Segundo a pesquisa de 2025 do DataSenado em parceria com o Instituto Nexus, cerca de 8,8 milhões de brasileiras afirmaram ter sofrido algum tipo de violência digital nos últimos 12 meses, incluindo ameaças, perseguição, difamação e discursos de ódio nas redes sociais.
Feminismo bem informado
Essa violência também é política e de gênero no ambiente digital. A pesquisa do Instituto Marielle Franco, de 2025, mostra que mulheres que atuam na política e na defesa de direitos — especialmente mulheres negras e LGBTQIAPN+ — são alvo recorrente de ataques digitais, que incluem campanhas de difamação, intimidação e tentativas de silenciamento. O levantamento evidencia que essa violência não ocorre de forma isolada, mas como parte de ações coordenadas nas redes, afetando diretamente a participação das mulheres na vida pública.
No contra-ataque, as organizações feministas e de direitos humanos passam a utilizar a capacidade de processamento da inteligência artificial para detectar violência política e de gênero, acolher vítimas e produzir evidências sobre padrões de ataques e de desinformação. Mais do que moderar conteúdos, essas tecnologias buscam fortalecer redes de proteção, ampliar o acesso à informação e enfrentar o apagamento histórico de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ nos espaços digitais e institucionais.
CONHEÇA ALGUMAS DELAS:
Quitér.IA
Uma iniciativa do Instituto AzMina, essa inteligência artificial feminista foi projetada para analisar, classificar e avaliar proposições legislativas (PLs) com foco nas questões de gênero, direitos das meninas, mulheres, pessoas negras e LGBTQIAPN+. Além do monitoramento automatizado da qualidade, a ferramenta tem a capacidade de analisar de forma precisa e ágil toda a movimentação legislativa relacionada a questões de gênero. Para acessar o painel da Quitér.IA, clique aqui.
Sentinela
A organização VoteLGBT desenvolveu a Sentinela, uma ferramenta confidencial para combater a violência política enfrentada por pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil. Utilizando inteligência artificial, a Sentinela é capaz de identificar padrões de ataques contra essas lideranças, receber denúncias e, assim, fortalecer a causa por eleições mais seguras e justas.
COMO DENUNCIAR?
Via formulário ou WhatsApp. Você escolhe se quer se identificar ou não. Há também a possibilidade da denúncia ser feita por um terceiro que presenciou a violência.
Chatbot Maria Valente
No Brasil, milhares de mulheres vivem sem acesso a informações básicas sobre seus direitos. Por isso, a Toda Cidadã idealizou o chatbot Maria Valente para democratizar a educação cidadã e digital para elas. O chatbot oferece informações confiáveis e de autoria própria sobre direitos das mulheres, orientando como acessá-los e sobre formas de exercitar a cidadania. Para interagir com a Maria Valente, basta iniciar uma conversa no WhatsApp.
Radar Social LGBTQIA+
O Radar Social LGBTQIA+, uma iniciativa da rede Código Não Binário, apresenta a interface do primeiro modelo de IA de código aberto (TybyrIA). Disponível gratuitamente online, esta ferramenta identifica discurso de ódio contra pessoas LGBTQIAPN+, oferecendo utilidades como análise de material, moderação de conteúdo e interfaces de apoio. Ele reconhece padrões de transfobia, homofobia, lesbofobia, bifobia, deadnaming e incitação à violência, funcionando como uma infraestrutura cooperativa essencial para pesquisa, advocacy e defesa jurídica da comunidade. Confira aqui.
FátimaGPT
Iniciativa da organização jornalística Aos Fatos, a robô FátimaGPT é uma checadora que usa inteligência artificial generativa para ajudar usuários a verificar conteúdos duvidosos. Fátima responde com nuance e contexto a assuntos complexos com base nos dados do próprio veículo. Converse com ela por aqui.
Esta matéria foi escrita por Natali Carvalho como parte do Programa de Bolsas de Jornalismo Forus.
*Edição: Jane Fernandes e Joana Suarez /// Artes: Giulia Santos
**Texto revisado com uso de IA – Link para a matéria: https://azmina.com.br/reportagens/ias-feministas-e-de-direitos-humanos-contra-o-discurso-de-odio-e-a-desinformacao/ – IAs de direitos humanos contra discurso de ódio e desinformação – AzMina
Natali Carvalho é Analista de Comunidades, formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pós-graduanda em Jornalismo de Dados, Automação e Storytelling no Insper. Foi repórter no Diário do Nordeste e integrou o Sala de Redação da ÉNOIS. Foi redatora do Garimpo no Núcleo Jornalismo. Tem uma história em quadrinhos nunca publicada.