
Manifesto da Palantir explicita a fusão entre Big Techs, militarização e imperialismo digital na disputa global por poder
Cian Barbosa | Opera Mundi
Aqueles que leram o novo tratado da empresa Palantir, um quasi-manifesto publicado já faz um mês, notaram que ele apresenta uma (nem tão) nova perspectiva dos “capitalistas digitais” norte-americanos sobre a política mundial: trata-se de uma reedição dos paradigmas coloniais e imperialistas para a realidade contemporânea. Aqui, você tem um resumo do que é fundamental nesse panfleto. A publicação, com 22 pontos, começa por anunciar uma espécie de “dívida moral” que o Vale do Silício teria com os Estados Unidos. Se nós tomarmos essa afirmação pelo seu lastro histórico, ela não é completamente equivocada – de fato, o desenvolvimento tecnológico que tornou possível a hegemonia digital (ainda existente) dos EUA, com sua centralidade na região norte da Califórnia, só foi possível pelo investimento financeiro oriundo da arquitetura monetária global imposta pelo imperialismo após a segunda grande guerra.
De fato, foi a dominação dos EUA – tanto financeira quanto militar –, que tornou possível o desenvolvimento do Vale do Silício: tanto com Bretton Woods, quanto após seu colapso, desencadeando uma verdadeira guerra pelo controle das transações financeiras sobre o petróleo (motivo das guerras na Indochina e no Oriente Médio). Olhando por essa perspectiva, faz sentido uma empresa com gigante fomento militar assumir uma dívida do Vale do Silício com seu país, especialmente pela narrativa de “defesa” da nação: foi com essa retórica que o próprio investimento militar em tecnologia foi legitimado nos EUA.
Entre o segundo e o quinto ponto, o “manifesto” da Palantir começa a definir seu verdadeiro tom político. Afirmando a necessidade dos donos empresariais da digitalização imperial entregarem algo relevante para os cidadãos americanos, a crítica da “tirania dos aplicativos” desdobra-se em uma apologia das armas movidas por inteligência artificial. Para um americano de direita – ou mesmo de centro (que não é muito diferente de um trumpista sagaz com talheres e etiquetas) –, o apelo é válido e eficiente: “a questão não é se armas de I.A. serão construídas, mas quem irá construí-las”. A paranoia frente a um inimigo insinuado está instaurada, uma espécie de macartismo 3.0, onde a corrida militarizada dos softwares reedita o apelo da Guerra Fria, tendo agora não só Rússia ou a China, mas também o Irã e outros fantasmas norte-americanos no Oriente Médio com mote fundamental.
O sexto ponto desse pretenso manifesto, apesar de curto, merece uma atenção especial: a sociedade estadunidense fora construída sobre a premissa a dominação mítica e militar do globo, e essa dominação implica em custos – financeiros e culturais; simbólicos e psicológicos – não só sobre os dominados, mas também nesta mesma sociedade. É a partir disso que esse ponto se inscreve: a ideia de que uma nova guerra só deve ser promovida se todos compartilharem de seu custo e risco não é uma tautologia vaga, mas um verdadeiro chamado. A Palantir toma assim uma frente empresarial de “politização” do discurso militar estadunidense, que é historicamente estatal (mesmo que o Estado sirva, como se sabe, à iniciativa privada, aqui encontramos uma quebra de mediações historicamente determinadas).
O sétimo ponto revela uma analogia fundamental: software e armamento (rifle) são apresentados como dois lados da mesma moeda. Isso não é apenas um pitch empresarial – obviamente, para uma empresa como a Palantir, um software é coextensivo à lógica bélica –, mas trata-se da realidade de domínio digital no contemporâneo: o espaço digital não deve ser compreendido como “mais um território de dominação”, mas “o território de dominação” hoje. Nesse sentido, é fundamental tomarmos como literais as palavras de nossos inimigos (ainda que tenhamos uma divergência central sobre seu sentido).
O ponto seguinte é uma evidente aclamação à retórica neoliberal: toma servidores públicos pela lógica empresarial para definir a justificativa de sua existência pela métrica do capital: “qualquer empresa que compensasse os seus funcionários da mesma forma que o governo federal compensa os servidores públicos teria dificuldades para sobreviver”. Não só é uma declaração de guerra aos servidores públicos, mas um reconhecimento de que essa é uma fronteira a ser superada pelo colonialismo digital da qual a Palantir é não só porta-voz, mas se pretende protagonista. Aqui temos uma questão fundamental de soberania nacional, dado o fato de que essa empresa lida com dados sensíveis do nosso Estado – por exemplo, no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).
Os pontos seguintes (9,10 e 11) argumentam algo que pode parecer palatável – o décimo ponto tem, inclusive, alguma razão argumentativa (contra a psicologização da política) – mas revelam-se extensões da mesma lógica. A solicitada benevolência às figuras que se submetem à vida pública é uma evidente apologia aos grandes empresários que interferem diretamente na política. Por outro lado, o argumento pela meditação na superação de “opositores” é mera retórica de regozijo – trata-se, fundamentalmente, de uma pseudo-diplomacia da dominação.
Filosoficamente, o décimo-segundo aforisma é, talvez, o mais relevante. Primeiro, ele reconhece a “era atômica” – e, posteriormente, proclama o seu fim. Esse fim é anunciado pela era da inteligência artificial. Mas o implícito, não exposto, é justamente a relação entre a era atômica e a digitalização, da qual a I.A. é um agente fundamental: o avanço da digitalização realmente existente não só tem a era atômica como condição de possibilidade, mas se desenvolve para responder aos seus impasses (militarmente, basta reconhecermos o imbróglio geopolítico que os armamentos nucleares impõem, e como a digitalização da guerra, com sua geolocalização e bombardeio por drones, irá emergir enquanto solução). Esse ponto, apesar de sucinto, é o que tem maiores implicações teóricas e práticas.
Os três pontos seguintes (12, 13 e 14) são relevantes em termos retroativos, como interferência nas consequências históricas do século XX e como acenos políticos: primeiro, uma inversão ideológica da noção de “valores progressistas” como legado legítimo dos EUA (o que deveria nos deixar ressabiados com a própria noção progressista liberal, herança e influência norteamericana); segundo, uma convocatória contra a “neutralização” da Alemanha e do Japão no pós-segunda guerra. Para bom entendedor, meia palavra basta.
Posteriormente, parece haver uma diferença entre as colocações, mas ela é mera aparência: trata-se de mais uma defesa da incursão dos tech-billionaires na vida política dos EUA e do globo (15, 16, 17, 18 e 19). O curioso aqui é um reconhecimento da insuficiência do mercado, tendo em empresários individuais (Elon Musk, no caso) a resposta necessária para agir nessa lacuna. Além disso, é evidente a inserção pretensa em assuntos de Estado – a necessidade do Vale do Silício em lidar com “crimes violentos” – por parte das empresas de tecnologia (algo um tanto Minority Report, para lembrarmos das ficções premonitórias de Philip K. Dick). Não sem razão há uma defesa pelo “altruísmo” dos bilionários que não se contentam em apenas enriquecer, mas fazem questão de participar da “vida pública”.
Entretanto, é preciso dar o braço a torcer e reconhecer que há um fundo de verdade na afirmação de que “aqueles que nunca falam nada de errado, nunca falam nada de relevante”. Talvez esse seja um ponto para a esquerda refletir em seu policiamento moralista que, via de regra, tem algo muito mais liberal do que propriamente de esquerda.
Os três pontos finais são fundamentais. Eles tratam de uma crítica “hardcore” ao multiculturalismo, ao mesmo tempo em que pregam uma reabilitação de crenças religiosas. Há, evidentemente, ecos de um “darwinismo cultural”, onde algumas sociedades produzem “avanços” e outras “regressos” – o que evidencia a posição nada “democrata” da Palantir, como alguns ainda acreditam. Mas encontramos também a crítica de um certo pluralismo vazio, inefetivo, que também deveria ser considerado de maneira séria àqueles que se propõem críticos da própria posição ideológica que assume a Palantir.
Os senhores da guerra, que hoje são, em grande medida, os senhores do digital, já percebem a ineficácia de um status quo em ruínas – promovido pelo conservadorismo liberal exercido pela ala do partido democrata estadunidense, e que (de diversas maneiras) exportou sua gramática para muitos lugares do globo, especialmente e significantemente para o Sul Global. Essa ineficácia, já percebida pelos arautos da chamada “nova direita”, irá cobrar seu preço, caso não estejamos atentos e, mais importante, dispostos a mudarmos o rumo da nossa orientação política – começando por reconhecer a inocuidade de muitos dos pressupostos sustentados pelo discurso pretensamente de esquerda, que não passa de um conservadorismo liberal-progressista que tomou conta de muitos espaços antes verdadeiramente combativos.
(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutor em filosofia (UNIFESP) e doutorando em psicologia (UFRJ). Pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de coordenador e professor no Centro de Formação.