27 de abril de 2026

Carta de São Paulo reafirma compromisso com a construção de uma comunicação plural e democrática

Após dois dias de intensos debates sobre a regulamentação das plataformas digitais, a batalha da comunicação em 2026 e o papel das mídias independentes diante da ofensiva imperialista e das ameaças à América Latina, comunicadores e ativistas digitais de Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso, Paraíba, Paraná, Rondônia, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo aprovaram as diretrizes de atuação para este ano.

Por unanimidade, os 68 participantes de 11 estados brasileiros presentes ao 9º Encontro Nacional de Comunicadores e Ativistas Digitais (BlogProg), realizado nos dias 24 e 25 de abril, no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, aprovaram a Carta de São Paulo. Entre os principais pontos do documento está a reafirmação do compromisso com a “construção de um ecossistema comunicacional plural, democrático e comprometido com os direitos humanos, a soberania nacional e a justiça social”.

O fortalecimento das mídias independentes e populares também aparece como tarefa estratégica para garantir a pluralidade informativa no país. “É fundamental avançar na construção de políticas públicas que assegurem sustentabilidade, diversidade e alcance a essas iniciativas, reconhecendo seu papel essencial na democratização da informação e na ampliação das vozes que constroem o debate público no país”, destaca a carta.

Nesse sentido, o documento também aponta como urgente a regulamentação das Big Techs, que hoje concentram poder econômico, político e informacional, tornando-se medida essencial para o enfrentamento da desinformação, do discurso de ódio e dos ataques à democracia.

O 9º BlogProg contou com apoio do NIC.br, por meio do CGI.br, além da parceria de entidades sindicais de todo o país. Os debates do encontro estão disponíveis no Canal do Barão no YouTube.

Leia abaixo a íntegra da Carta de São Paulo:

CARTA DO 9º ENCONTRO NACIONAL DE COMUNICADORES E ATIVISTAS DIGITAIS

Reunidos nos dias 24 e 25 de abril de 2026, na cidade de São Paulo, comunicadores, comunicadoras e ativistas digitais se encontram para refletir coletivamente sobre os desafios do nosso tempo e afirmar o papel estratégico da comunicação na disputa dos rumos da sociedade brasileira diante de um mundo em estado máximo de tensão.

Em sua 9ª edição, o Encontro Nacional de Comunicadores e Ativistas Digitais se situa em uma conjuntura social, política e tecnológica bastante diferente de sua estreia, no longínquo ano de 2010. 

Desta vez, estiveram presentes cerca de 100 participantes vindos das seguintes partes do Brasil: Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso, Paraíba, Paraná, Rio de Janeiro, Rondônia, Santa Catarina e São Paulo. 

Além da escalada da ultradireita, que combina uma agenda ultraliberal na economia com violência, discurso de ódio e desinformação como método, o planeta se vê em alerta diante da imposição de uma agenda neocolonial e belicista, impulsionada pelo chamado “Consórcio Epstein”, isto é, pela aliança entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Na América Latina, as peças se movem no mesmo sentido, com o retorno de forças oligárquicas ao poder em diversos países e com o risco extremo que corre o Brasil na batalha eleitoral de outubro.

O pleito será marcado pela contraposição entre um projeto comprometido com a soberania nacional, o desenvolvimento e o diálogo, e outro orientado pelo desmonte do Estado, pelo entreguismo e pela retomada de um processo de regressão social e civilizatória, com alinhamento automático e submisso à agenda da Casa Branca.

Vivemos um período de intensas transformações tecnológicas, profundas desigualdades sociais e acirramento da disputa política e ideológica.

Nesse cenário, a comunicação ocupa lugar central — seja como ferramenta de disputa de sentidos e fortalecimento democrático, seja como instrumento de manipulação, desinformação e violência.

Diante disso, reafirmamos nosso compromisso com a construção de um ecossistema comunicacional plural, democrático e comprometido com os direitos humanos, a soberania nacional e a justiça social. Segue prioritária a reivindicação pelo fortalecimento das mídias independentes e populares. É fundamental avançar na construção de políticas públicas que garantam sustentabilidade, diversidade e alcance a essas iniciativas, reconhecendo seu papel essencial na democratização da informação e na ampliação das vozes que constroem o debate público no país.

Da mesma forma, torna-se cada vez mais incontornável o debate sobre a regulação das plataformas digitais. As chamadas Big Techs concentram poder econômico, político e informacional sem precedentes, operando, quase sempre, à revelia do interesse público. Defender sua regulação é defender a transparência, a responsabilização e a proteção da sociedade frente à desinformação e aos discursos de ódio.

Consideramos imprescindível, também, pautar na ordem do dia do jornalismo brasileiro o enfrentamento à escalada de violências que atravessam a sociedade brasileira, em especial o feminicídio, expressão extrema de uma cultura estrutural de opressão de gênero que precisa ser combatida com políticas públicas, responsabilização e transformação cultural. A comunicação é peça-chave nesse tabuleiro.

Além disso, é fundamental que o conjunto das mídias independentes e contra-hegemônicas amplifique, de forma articulada e permanente, a agenda de lutas dos movimentos populares no Brasil, contribuindo para dar visibilidade às suas pautas, fortalecer suas mobilizações e disputar narrativas no espaço público.

Nesse sentido, é igualmente central incorporar à disputa de ideias a defesa intransigente dos povos originários e da justiça climática, em um momento em que a crise ambiental se aprofunda e se torna também campo de batalha política e informacional. A proteção das riquezas naturais brasileiras, incluindo nossos bens estratégicos e as chamadas terras raras, deve estar articulada a um projeto de soberania nacional que enfrente a lógica predatória e neocolonial.

Por fim, nesse mesmo horizonte, é indispensável reconhecer a potência da juventude brasileira, escutar com atenção suas vozes, aprender com suas experiências e valorizar aquilo que já vêm produzindo no campo da comunicação contra-hegemônica. São essas práticas, linguagens e formas de organização que apontam caminhos para a renovação do debate público e para o aprofundamento da democracia.

Este encontro se realiza em um contexto de permanente vigilância democrática. A ameaça de reorganização de forças da ultradireita no Brasil exige atenção, articulação e capacidade de mobilização. Cabe a nós, comunicadores e ativistas, seguir atuando de forma incisiva para barrar retrocessos, enfrentar a desinformação e defender os avanços conquistados pelo povo brasileiro.

Conclamamos todas e todos a dar continuidade a este processo de articulação, formação e luta para além deste encontro, fortalecendo as iniciativas em curso e somando-se às ações impulsionadas pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, como espaço estratégico de organização, reflexão e intervenção na disputa comunicacional no Brasil.

Propostas de emendas e encaminhamentos aprovadas em plenária:

– Instituir política nacional de financiamento à mídia alternativa, com destinação de no mínimo 10% das verbas públicas de publicidade, critérios transparentes de distribuição regional e inclusão de rádios e TVs comunitárias. (Sousa Junior – Rádio e TV Atitude Popular)

– Incentivar a atuação articulada da mídia alternativa e dos movimentos sociais no processo eleitoral, com apoio a candidaturas comprometidas com as pautas populares e adesão à campanha Brasil Soberano, Congresso Amigo do Povo. (Sousa Junior – Rádio e TV Atitude Popular)

– Fortalecer uma prática de comunicação dialógica, participativa e emancipadora nas mídias alternativas, baseada na escuta ativa, na coautoria e na valorização das experiências concretas dos trabalhadores e das periferias, transformando essas vivências em conhecimento estratégico. Essa abordagem deve consolidar a comunicação como ferramenta organizativa dos movimentos sociais, ampliando o senso de pertencimento, combatendo a fragmentação da classe e contribuindo para a construção de processos coletivos de resistência frente à precarização do trabalho. (Amanda Monteiro – Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região e mestranda bolsista da CAPES em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba)

– Incorporar o debate sobre inteligência artificial como eixo estratégico da democratização da comunicação, defendendo sua regulação com base na soberania informacional, transparência algorítmica e proteção de dados. Ao mesmo tempo, investir na formação crítica e técnica de comunicadores e ativistas, fortalecendo a capacidade de disputar essas tecnologias, enfrentar a desinformação e incidir na construção de políticas públicas para um uso ético e democrático da IA. (Érica Aragão – Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região)

– Realizar cobertura estratégica que conecte o futebol — especialmente a Copa do Mundo — às pautas populares, incluindo a promoção de mesas e debates como “A Copa é do povo?”, reunindo comunicadores, jornalistas e influenciadores para refletir sobre o esporte como expressão cultural e território político, aproximando a comunicação progressista dos interesses e vivências do povo. Como atividade concreta, propõe-se a realização da mesa “A Copa é do povo?”, com a participação de José Trajano, Juca Kfouri, Lúcio de Castro, Mauro Beting, Mauro Cezar Pereira e Paulo Vinícius Coelho, além de representantes da Revista Fórum, Brasil 247 e Barão de Itararé e influenciadores do futebol com visão popular e progressista, para debater o futebol para além do espetáculo, abordando quem ganha, quem perde e como transformar essa paixão coletiva em consciência, participação e organização popular. (Ana Paula Brito e Marcelo Nogueira)

São Paulo, 25 de abril de 2026